A rotina de muitas crianças está cada vez mais conectada às telas, mas os espaços de brincadeira ao ar livre continuam sendo valorizados – e planejados – nos condomínios. Pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com o Datafolha, realizada em abril de 2025, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos e 94% das de 4 a 6 anos têm contato diário com telas. Ao mesmo tempo, metade dos entrevistados apontou as brincadeiras ao ar livre como uma das melhores formas de entretenimento infantil.
De olho nesse mercado, essa combinação tem levado incorporadoras a repensar o lazer infantil nos empreendimentos. Segundo algumas construtoras, o playground tradicional não desapareceu, mas passou a dividir espaço com brinquedotecas, áreas verdes, piscinas infantis e ambientes de convivência. A proposta é integrar o lazer infantil ao cotidiano do condomínio, e não mais isolá-lo em um canto do térreo.
Pesquisa da Loft realizada em 2024 com 1.722 moradores de seis capitais brasileiras reforça essa tendência, onde 65% dos entrevistados deram nota 4 ou 5 (em uma escala de 1 a 5) ao desejo de ter playground no imóvel ideal. Entre os mais jovens, de 25 a 34 anos, o índice chega a 73,4%.
Prioridade mesmo em projetos mais enxutos
Nos empreendimentos de entrada – voltados para a compra do primeiro imóvel e utilizam programas habitacionais do governo -, o tamanho do terreno e o orçamento influenciam diretamente no que será oferecido. Ainda assim, essas áreas de lazer seguem como item essencial. Na MRV, por exemplo, a área externa de brincar permanece entre as mais utilizadas pelos moradores, segundo Carolina Zampier Montenegro Simões, gerente de produtos da incorporadora.
“Mesmo nos empreendimentos de entrada, o playground é considerado um item essencial e, por isso, não costuma estar entre as primeiras opções quando há necessidade de reduzir ou simplificar o projeto”, afirmou Simões.
Outra incorporadora, a Plano & Plano, também mantém playground e brinquedoteca em todos os lançamentos de 2025 e 2026. Conforme Luciana Vieira, superintendente de incorporação, a principal mudança é que o lazer infantil deixou de ser um equipamento isolado e passou a fazer parte da vida do condomínio. “Nós não enxergamos o lazer infantil como algo a ser cortado, e sim como algo que precisa ser dimensionado para cada projeto”, defendeu.
Diferentes padrões, diferentes formatos
A diferença entre os segmentos aparece na amplitude do programa de lazer. A Trisul, que atua tanto no mercado popular quanto no alto padrão, mantém espaços infantis nos dois tipos de empreendimentos. Segundo Victor Saad, diretor Comercial e de Marketing, o que muda é a quantidade de ambientes, a variedade de atividades e o nível de detalhamento do projeto.
Nos condomínios de alto padrão, é comum encontrar ambientes separados por faixa etária, espaços para adolescentes, brinquedotecas temáticas e áreas de brincar integradas ao paisagismo. Já em projetos mais enxutos, a solução pode ser reunir atividades em menos ambientes, como a combinação entre playground e brinquedoteca.
André De Marchi, diretor de incorporação da Benx, acredita que as áreas tradicionais de lazer, compostas apenas por brinquedos metálicos ou módulos padronizados, perderam protagonismo. “Embora ainda existam, deixaram de ser o principal atrativo infantil”, afirmou. Entre as alternativas estão brinquedotecas multifuncionais, ambientes temáticos, playgrounds de aventura e elementos naturais.
O que esperar do futuro
A tendência é que os espaços infantis sejam cada vez mais integrados, flexíveis e planejados para diferentes faixas etárias. Em vez de um conjunto fixo de equipamentos, a proposta é oferecer múltiplas possibilidades de brincadeira, com caminhos, cabanas, túneis, circuitos sensoriais e brinquedos de madeira. Para o morador de condomínio, a mensagem é clara, isto é, o lazer infantil continua sendo prioridade – e deve ganhar novos formatos, mais conectados com o convívio social e com o meio ambiente.



